Who is Heisenberg? E porque Breaking Bad é tão importante para o libertarianismo quanto a Revolta de Atlas.

Liberalismo, Libertarianismo e Progresso

Começaremos estabelecendo dois conceitos simples, de forma introdutória. 1) Libertarianismo não difere em quase nada do liberalismo clássico. É a mesma filosofia com nomes diferentes. Por que isso? Porque o termo liberal nos EUA foi sequestrado pela esquerda progressista. Até hoje o termo “progressist” lá tem suas conotações negativas. Socialismo e comunismo sempre foram mal vistos, seja pela propaganda americana antimarxista da guerra fria, seja pelo sucesso do “capitalismo” naquele país.  Para os liberais clássicos americanos se acharem no aspecto político, eles tiveram que inventar um novo termo e resgatar as antigas propostas do liberalismo. 2) De acordo com a Wikipédia, libertarismo, algumas vezes traduzido do inglês como libertarianismo, é a filosofia política que tem como fundamento a defesa da liberdade individual, da não-agressão, da propriedade privada e da supremacia do indivíduo. Portanto, liberalismo e libertarianismo podem se associar mutualmente. Diferente do socialismo, libertários defendem tanto a liberdade individual quanto a liberdade econômica.

Por liberdade individual, entende-se como a defesa da livre iniciativa, da livre associação, da liberdade de expressão, da defesa da liberdade das minorias excluídas, como homossexuais e negros, e da liberdade de usar seu corpo (a propriedade mais importante para o liberal) como bem entender, desde que não interfira na liberdade de terceiros. Liberdade econômica é a liberdade de empreender sem ser impedido, pouca ou nenhuma interferência do governo na economia, a favor da supremacia da livre-concorrência e do livre mercado. Sem liberdade econômica não há liberdade individual plena. Para o liberal libertário (um termo que gosto de usar para diferir do liberal conservador) esses dois conceitos são os ingredientes para o desenvolvimento e para a paz. Ao contrário de muitas filosofias políticas revolucionários, o liberalismo não prega utopias, nem o paraíso na terra na qual todos serão iguais e livres. Sempre haverá injustiças. Isso não quer dizer que tais injustiças não podem ser minimizadas.

O maior exemplo da força do liberalismo está no progresso na qual os países que o adotaram (ou mais chegaram perto de adotar) chegaram. Inglaterra, EUA, Suíça, Austrália, Hong Kong, Coreia do Sul, Nova Zelândia, Canadá, Chile, Japão, entre outros, chegaram onde estão graças a adoção de muitas políticas liberais. Para se entender, liberdade econômica não é um pressuposto que faz de um país rico de um dia para ao outro, mas um dos maiores ingredientes para o progresso. Basta pegar o Índice do Heritage Foundation: www.heritage.org/index/ (Há também a versão em português, organizado pelo IDEAS e EPL: http://liberdadeeconomica.com.br). Compare os índices, a renda, o IDH, as taxa de natalidade e o crescimento econômico e trace os dados com os países mais atrasados e os mais desenvolvidos. Se quiser um resumo, esse vídeo já dá uma bela ajuda: http://www.youtube.com/watch?v=7zD1wpx_cgE.

No final, a conclusão que se chega é que os países que mais se aproximaram dos ideais do liberalismo foram os países que mais diminuíram as injustiças, mais progrediram em termos humanos, com mais liberdade, desenvolvimento e renda. O liberalismo não criou países perfeitos, como a Coreia do Norte, com seus unicórnios e Messias-presidente (Na posição 178º índice do Heritage), mas deu mais dignidade a quem defendeu as ideias de liberdade contra todas as tentações do despotismo, tanto de direita quanto de esquerda.

Breaking Bad de Ayn Rand

Lembro-me de ter começado a assistir Breaking Bad na mesma época que lia a Revolta de Atlas, da Ayn Rand. Comprei o livro porque além de ter um conteúdo muito interessante, era ficção cientifica, um dos meus maiores fracos.  Ayn Rand é considerada a criadora do Objetivismo e foi uma libertária convicta. O Objetivismo não é a filosofia do libertarianismo, mas pode ser considerada como uma filosofia moral libertária. Em seu Romance, Ayn Rand aborda a realidade de acordo com essa sua visão. Revolta de Atlas é um livro que monta uma distopia na qual os EUA é um país decadente, na qual as ideias coletivistas sobrepõem de todas as maneiras o indivíduo. É a ideia na qual Rand tinha em mente de uma sociedade que abandonava a defesa da liberdade e desvalorizava todos aqueles ideais do libertarianismo na qual falei no começo do post.

O livro de Rand é eficiente em propagandear sua filosofia, mas peca como obra literária, como simbologia narrativa. Seus personagens são poucos desenvolvidos, profundos como pires e muito caricatos. Seus vilões despertam um atenção por sua identificação com a realidade, mas são óbvios demais. É um livro que tem mais diálogo que narração, como se fosse um roteiro. É um bom livro, contudo. Tem um texto claro, um enredo interessantíssimo, uma linha de pensamento que desperta curiosidade e uma amarga similaridade com a realidade. Mas Ayn Rand está longe de alcanças os melhores escritores comunistas, como Saramago.

Foi por isso que, na tentativa de achar um símbolo maior para o libertarianismo, Breaking Bad me chamou a atenção. Não pelo fato de na série existir um personagem que se declara abertamente libertário, mas porque todos os valores, debates e conflitos que envolvem o pensamento liberal estão ali. Breaking bad é tudo aquilo que eu queria que Revolta de Atlas tivesse sido artisticamente.

Breaking Bad como Símbolo das Escolhas Individuais e um Tratado sobre a Liberdade

Breaking bad tem um premissa interessante. Walter White, um professor de química, descobre que aos 50 anos ele possui câncer de pulmão. White nunca fumou na vida, nunca se arriscou e sempre levou um vida segura.  Mas percebe agora que está na beira do precipício do fracasso e da doença. É um dilema individual. Walter se ver como um ser que chega ao mundo sem contribuir em nada e ainda com o risco de deixar seus filhos na penúria, incapaz até mesmo de pagar pelo tratamento quimioterápico. É por essa ideia que ele decide entrar no ramo do tráfico de metanfetamina, uma das droga mais poderosas que existem.

Não foge de uma realidade palpável. Vicente Gillian, criador da série, faz do absurdo algo tão concreto que chegamos na conclusão que há vários Walter Whiters por ai. O mais interessante é que, devido a isso, a droga não é o carro chefe do drama, nem seu assunto principal. O foco está mesmo é nas escolhas individuais do protagonista.

De certa maneira, o espaço que o dilema sobre as drogas possui na série é fundamental para se entender as escolhas de Walter White. Em nenhum momento Walter se ver preso na culpa por estar viciando pessoas. O professor de química já entende que não é culpa dele o fato de haver demanda por metanfetamina. Se não for ele, haverá outros produzindo a droga. Toda demanda gera sua oferta. É uma questão de princípios. Não há qualquer defesa ou apologia ao uso de drogas, isso é uma questão que está além da análise de terceiros. A razão de certas pessoas irem atrás desses entorpecentes está ligado essencialmente às escolhas que esses indivíduos fazem. Seja por fatores emocionais, de entretenimento ou ignorância, o uso de drogas é prejudicial. O problema reside na hora de uma solução para essa questão, que muitos alegam que seja de saúde.  A verdade é que a guerra às drogas não possui essa virtude. Ela é um instrumento moralizante e não objetivo para o problema das drogas. Seus resultados são decepcionantes e conflitosos com sua intenção, que era a paz.

As pessoas tem medo da liberdade, mesmo que essa liberdade seja a liberdade de outra pessoa. Não entendem que a melhor forma de tratar o problema não é tirando o poder de escolha das pessoas, mas dando mais liberdade ainda. Se você tem uma sociedade que conscientiza as pessoas dos perigos das drogas, ou de qualquer outra coisa, é da responsabilidade do indivíduo se arriscar, já que ele sabe onde esse caminho o pode levar. Se você tira isso do indivíduo, a responsabilidade cai no ombro de outra pessoa, tirando a capacidade de desenvolvimento pessoal de quem deveria ser responsável, o que necessariamente afeta terceiros inocentes, que não tinham nada a ver com isso.

Walter White não sabia disso. No decorrer das temporadas, vemos uma serie de escolhas pessoais que o levam a cometer os piores delitos. Isso cria um personagem conflituoso, capaz de ter até mesmo dois modus operandi. Walter se torna Heisenberg, um traficante dono de um império, maquiavélico e manipulador. É notável que apesar de tudo, ainda há humanidade em Walter White. O que torna a serie ainda mais peculiar. Temos um anti-herói que é capaz de quase sacrificar uma criança para proteger sua família e a vida dos que ele ama.

O resultado das ações de Walter é justamente um exemplo do que acontece quando se dar mais valor às intenções do que aos resultados. As intenções de Walter era prover para família, dar dignidade a ela quando ele morrer, devido ao câncer.  Mas quando o protagonista percebe que graças as suas ações ele começa a perder sua família e arriscar até mesmo a saúde de seus filhos, sua capacidade de controlar as situações o abandona. É a partir daí que se percebe que a nossas escolhas são facas de dois gumes, capazes de ferir até mesmo quem não parecer ter influência nas nossas ações.

Walter não foi capaz de prever as consequências de suas atitudes. O problema reside no fato de suas ações não terem sido capazes de se manterem fechadas apenas a seu escopo pessoal. Elas vitimaram terceiros. Vitimaram até mesmo aqueles que suas ações buscavam proteger. Isso porque Walter foi incapaz de perceber que foi lhe tirado a responsabilidade de escolher. Walter não podia explorar a mentafetamina a seu favor. A lei não permitia. Devido a lei não permitir, não era possível para Walter calcular se tal escolha o beneficiaria ou não no fim das contas. Liberdade não é poder fazer escolhas morais ou amorais, mas ter a capacidade de perceber se suas escolhas podem te beneficiar ou prejudicar terceiros. As drogas prejudicam apenas aqueles que optaram por tal escolha, mesmo sabendo dos seus danos. Já tráfico e a guerra às droga matam e prejudicam muito mais pessoas do que o vício.

O que torna a série tão libertária é sua dicotomia fundamental entre liberdade e responsabilidade, tão presente no discurso liberal. Tudo que está na série pode ser observado por esse viés. Ao contrário da Revolta de Atlas, Breaking Bad não possui uma agenda ideológica. Por isso, consegue desenvolver melhor seus personagens, inserindo mais ainda na realidade. Contudo, é isso que faz dela tão eficiente em dar publicidade a ideias de liberdade, mostrando que nada é tão complexo como defender a nossa capacidade de fazer escolhas.

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